Texto de Gustavo H. M. Braga
Gosto de correr no Parque da Cidade para encher os pulmões de ar e fazer o coração bombear sangue freneticamente para todas as artérias. Às vezes parece que a tensão do dia-a-dia escorreu junto com o suor. Por um lado me sinto mais vivo quando corro, por outro, frágil e próximo da morte. O problema é que não há nada para preencher o buraco deixado pelo estresse.
Na última vez que fui ao parque segui a rotina. Pratiquei o esporte sozinho. Em outras ocasiões convidei ex-namoradas e mulheres em quem estava interessado, até hoje ninguém aceitou. Para piorar, não tenho amigos que corram. Comecei o trajeto pela pista em forma de caracol num bosque de pinheiros. Nos amplos espaços das cercanias algumas pessoas preparavam churrasco.
Durante o percurso cruzei com criancinhas ofegantes que pedalavam com toda a força mini bicicletas coloridas na tentativa de alcançar os pais atletas, que por sua vez paravam de tempos em tempos para não perder os pequenos de vista. Vi casais vestidos com boné e óculos escuros que caminhavam de mãos dadas, outros conversavam enquanto corriam, os homens geralmente de camisa regata e as namoradas de top. Havia ainda grupos variados como amigas acima do peso em busca da boa forma e rapazes vindos da academia para a parte aeróbica do treinamento. Todos passeavam felizes.
Impressionei-me com mulheres elegantes, imponentes vestidas com as mais caras grifes para ginástica. Loiras, ruivas ou morenas, altas ou peitudas, passavam sem olhar para mim, com fones de ipod nos ouvidos. Algumas vinham com cachorros na coleira em vez de companheiros da mesma espécie. Tive a impressão que só para me humilhar corriam mais rápido que eu. Nesses momentos me achava um fracote. Magro, descabelado, sem fôlego, cabisbaixo; caso houvesse um espelho no parque veria uma silhueta esquálida cambaleante sobre duas perninhas finas e tortuosas.
A temperatura esfriou. Parei para descansar numa das mesas de plástico de um quiosque na beira da ciclovia. Bebi água de coco. Observei jovens da minha idade andarem de patins, um homem e uma mulher conversarem na mesa ao lado e, ocasionalmente, alguém que aparecia para comprar picolé. Imaginei como seria alguém correr comigo naquele fim de tarde. Fui incapaz de derramar uma só lágrima apesar da estranha dor no peito e do nó engasgado na garganta. Ao mesmo tempo senti algo e não senti nada.
Eu poderia gritar, me matar, botar fogo nas árvores e destruir tudo à minha volta, porém, não faria diferença. Todos seguiriam inabaláveis, arrogantes, de cabeça erguida, conscientes da própria superioridade. Estava nublado e começou a trovoar. No início caíram pingos fracos, em pouco tempo veio a tempestade.
Levantei, fechei os olhos e corri sem direção o mais rápido que pude. Segui em frente até esgotarem minhas forças, acabei rastejante. Olhei mais uma vez ao meu redor. Havia chegado num local pouco freqüentado do parque, o sol se escondia no horizonte, as árvores balançavam ao vento, um cheiro de grama molhada invadiu minhas narinas e o som dos gritos e sorrisos dos que jogavam futebol nos distantes campos do parque atraiu minha atenção.
Senti o tronco gelado sob o peso da camisa molhada e os pés afogados nas meias encharcadas. Num instante vi as coisas embaralhadas, tremi; de repente, tudo voltou ao normal. Eu pulsava em ritmo acelerado, mas tive o receio de que talvez nunca estive ali. Percebi que não estava propriamente vivo nem morto. Continuei sozinho e me perguntei qual o significado de correr no parque.





